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HIPER GOSPEL

Billy Graham, pastor e evangelista americano, morre aos 99 anos

21 FEV 2018
21 de Fevereiro de 2018
O Pastor e evangelista americano Billy Graham, conselheiro espiritual de diversos presidentes que pregou para milhares de pessoas no mundo todo, morreu nesta quarta-feira (21) aos 99 anos.

Nós da Equipe Hiper Gospel gostaríamos nesta singela nota, fazer um pequeno arrazoado de sua história e contribuição para a evangelização.

Abaixo segue artigo do Drº Eduardo Chaves, retirado com permissão de seu blog, publicado em 15/08/2017 https://historiadaigreja.space/2015/08/15/billy-graham-e-o-movimento-evangelistico-internacional/

Entre as importantes realizações de Billy Graham está (além de suas conhecidas Cruzadas Evangelísticas) “o alvorecer de uma nova era missionária” (expressão retirada da primeira frase do Pacto de Lausanne – ver adiante) e o que me parece ser a definitiva internacionalização e interdenominacionalização do movimento evangelístico cristão na segunda metade do século 20 – fato esses que deram uma aura de unidade global ao Movimento Neo-Evangélico criado e “energizado” (por ele e outras figuras importantes, como Harold Ockenga e Carl F. H. Henry) a partir de meados dos anos 40. O ministério de Graham compreende os 60 anos de 1945 a 2005 (embora ele esteja ainda vivo, devendo completar 97 anos de idade em 7 de novembro deste ano de 2015, quando ela completa dez anos de aposentadoria).

(Falo em Movimento Neo-Evangélico, quando outros chamam esse movimento, mesmo em Português, simplesmente de “Evangelical” ou simplesmente de “Evangelicalismo”, porque a ação de Graham et alii retoma e relança o Movimento Evangélico / Evangelístico original, surgido nos séculos 18 e 19, que envolveu o Pietismo no Continente Europeu, a revolução metodista na Inglaterra e nos Estados Unidos, os diversos Despertamentos e Avivamentos interdenominacionais que tiveram lugar nos Estados Unidos nesses dois séculos (The Great Awakening, The Second Awakening, The Third Awakening), o surgimento do movimento Pentecostal, já no início do século 20 (mas preparado pelos desenvolvimentos anteriores), etc.. Essa rica herança – que envolveu criação do movimento missionário internacional do século 19 – faz com que alguns autores chamem o movimento Neo-Evangélico, em especial depois de sua preocupação com a internacionalização e interdenominacionalização (ou “ecumenização”) da causa evangelística, de The Fourth Awakening).

Depois do Congresso Internacional de Edinburgo, em 1910, que não foi global, porque dele participou apenas parte do “Norte” (a Europa e os Estados Unidos), nem ecumênico, porque dele não participaram cristãos católicos e ortodoxos, houve um hiato de mais de 50 anos em que pouca coisa aconteceu na área do fortalecimento do movimento evangelístico no plano verdadeiramente internacional e interdenominacional (ou ecumênico). As missões evangelísticas do século 19 foram estrangeiras mas não necessariamente internacionais, muito menos interdenominacionais (ou ecumênicas), cada denominação se incumbindo de desenvolver a sua e às vezes se concentrando num segmento específico do globo: a América Latina, a África, a Ásia. O Protestantismo brasileiro, embora, em alguns casos, como o luterano, se deva à imigração, é predominantemente um Protestantismo de Missões que aqui criou raízes especialmente no século 19.

Foi Billy Graham quem concebeu, convocou, organizou, financiou e abriu, como seu Chairman Honorário, o Congresso Mundial de Evangelismo de Berlin, em 1966, cinquenta e seis anos depois do Congresso de Edinburgo. Carl F. H. Henry, parceiro de Billy Graham, e que havia sido colocado por ele como editor da revista Christianity Today, da qual Billy Graham também foi um dos fundadores (e que existe até hoje), foi o Chairman (Secretário Executivo) do Congresso de Berlin.

Também foi Billy Graham quem concebeu, convocou, organizou, financiou e abriu, igualmente como seu Chairman Honorário, o mais famoso desses congressos, o Congresso Internacional para a Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, em Julho de 1974.

Para esse congresso Billy Graham sabiamente escolheu um bispo anglicano radicado na Austrália, A. J. “Jack” Dain, um competente e diplomático “organization man”, com excelente trânsito nos bastidores e meandros do complicado movimento Neo-Evangélico, como Chairman (Secretário Executivo) do Comitê Planejador e Organizador do congresso, e o famoso teólogo inglês, John Stott, para servir como redator do documento final do congresso, o chamado “Lausanne Covenant” (Pacto de Lausanne) – também uma sábia decisão. Chamo de sábias essas decisões porque os ingleses, como um grupo nacional, estavam extremamente reticentes em relação ao congresso – em parte por preconceitos contra Graham, em parte porque a iniciativa de Graham significava que os Estados Unidos estavam definitivamente removendo mais uma área da esfera de influência inglesa, depois de terem assumido a liderança industrial, econômica, política e militar.

Foi ainda criado um Comitê de Continuação para, posteriormente ao congresso, dar implementação e continuidade às suas decisões. Esse comitê existe até hoje (tendo retirado a referência a “continuação” do nome) e foi responsável pela organização, sob a “marca” Lausanne, de dois outros congressos internacionais, o de Manila, nas Filipinas, em 1989, quinze anos depois do primeiro, e o de Cidade do Cabo, na África do Sul, em 1910, 21 anos depois do segundo. O envolvimento de Billy Graham no segundo e no terceiro congressos foi bem menor – em parte por causa da idade. Seu filho, Franklin Graham, nem de longe tão carismático, diplomático e eficiente quanto o pai, participou do Congresso de Cidade do Cabo.

A razão para Billy Graham pessoalmente se envolver na organização e na viabilização do  financiamento dos eventos internacionais e transdenominacionais de Berlin e Lausanne (neste caso, o primeiro) está no fato que ele achava que as igrejas organizadas, depois do século 19 em que elas verdadeiramente se voltaram para o trabalho evangelístico de conquistar para o Cristianismo os povos não-cristãos da América Latina [aqui, cristãos católicos em grande parte nominais apenas], da África e da Ásia, haviam se tornado muito “ensimesmadas”, voltadas para si mesmas, preocupadas exageradamente com seus próprios problemas. Eis o que diz o Pacto de Lausanne, em seu item 6: “Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã”. Eis algumas das questões que caracterizavam a preocupação com “os  nossos guetos eclesiásticos”:

  • Questões doutrinárias, tentativas de redefinir o objeto da fé para não serem engolidas pelo mundo cético e secularizado, certamente desencantado com a religião organizada, que irrompeu na Europa e nos Estados Unidos (mais na Europa do que nos Estados Unidos) no século 20;
  • Questões de unidade interna, decorrente de conflitos, em parte teológicos, e parte políticos (política interna à denominação e externa a ela), e em parte culturais, entre suas facções conservadoras (não raro fundamentalistas), modernistas (liberais e, cada vez mais, “pós-modernas”) e, no meio, moderadas;
  • Questões, ao mesmo tempo internas e externas, sobre como lidar com grupos reivindicatórios que se consideravam discriminados dentro das diferentes denominações, como, por exemplo, as minorias raciais e étnicas (racismo), as mulheres (feminismo), os homossexuais e outras minorias em termos de orientação sexual (sexismo), os defensores de uma ação social mais agressiva da igreja no combate à miséria e à pobreza (classismo), os proponentes de um envolvimento mais agressivo da igreja na luta contra a opressão institucionalizada dos povos, como nos regimes colonialistas (imperialismo) (o, em que essa opressão era acompanhada de racismo (como na África do Sul) e ditaduras militares (como em boa parte da América Latina e da África), e nos regimes totalitários comunistas (oficialmente ateus), etc.;
  • Questões de aproximação externa com outras denominações e igrejas cristãs, com vistas à cooperação interdenominacional e, quem sabe, eventual construção de um verdadeiro movimento ecumênico que levasse a uma oportuna unificação do Cristianismo.

Enquanto tudo isso acontecia, e as igrejas continuavam, por assim dizer e em grande parte, a olhar para os próprios umbigos, a questão da evangelização dos povos (ainda) não cristãos (fora da Europa e dos Estados Unidos) não recebia a devida atenção, no entender de Billy Graham. . . Por maior sucesso que tivessem suas Cruzadas Evangelísticas Internacionais (e elas tiveram muito sucesso), o Cristianismo não podia depender apenas delas para parar de perder terreno para o secularismo e outras ideologias a-cristãs ou mesmo anti-cristãs (e anti-religiosas, como era o caso do Comunismo), e avançar no cumprimento da Grande Comissão (“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”).

A ação de Billy Graham na internacionalização e interdenominacionalização do movimento de evangelização mundial, e através da ação de suas Cruzadas, que começaram nos Estados Unidos mas, gradualmente, se voltaram mais e mais para outros países, inclusive do Terceiro Mundo (tendo ele  estado diversas vezes no Brasil, por exemplo), é, em grande parte, responsável pela chamada “mudança de eixo” do Cristianismo na segunda metade do século 20, que começou a crescer em taxas fantásticas no Terceiro Mundo (o “Sul”, ou o “Mundo da Maioria”, como preferem alguns), do que no Primeiro Mundo (Europa e Estados Unidos, principalmente), em que, em especial no caso Europeu, taxas declinantes de crescimento apontam para uma possível taxa negativa futuramente.

Por fim, é importante ressaltar que Billy Graham, ao convidar participantes latino-americanos (bem como africanos e asiáticos) para o Congresso de Lausanne, acabou por criar um problema, certamente não antecipado e muito menos desejado por ele: a criação, dentro do movimento Neo-Evangélico, de uma ala “esquerdista”, por assim dizer. Três representantes latinoamericanos, por sinal todos os três batistas, de certo modo roubaram um pouco a cena, em Lausanne: René Padilla, equatoriano, Samuel Escobar, peruano, e Orlando Costas portoriquenho. Estes três (dos quais apenas Orlando Costas é falecido, tendo morrido em 1987, aos 45 anos) criaram furor no congresso propondo e defendendo uma Teologia da Missão Integral, que defendia que a missão (integral) da igreja também deveria envolver:

  • sem prejuízo do aspecto importante e quiçá prioritário da conquista do mundo para o Cristianismo e da salvação da alma das pessoas, que irá beneficiar não só as pessoas, individualmente, “no celeste porvir”, mas também o mundo, nesta “dispensação” (a evangelização, propriamente dita);
  • o combate à miséria e à pobreza, à doença e à fragilização da vida, ao crime e à violência, bem como a promoção da educação (aquilo que, apesar de soar mal, pode ser chamado de combate à ignorância e à superstição), não só através do assistencialismo, mas, sim, e principalmente, pela busca de mudanças nas estruturas sociais que perpetuam essas condições (a chamada ação social);
  • a luta contra a opressão (a chamada libertação dos oprimidos), estejam os oprimidos debaixo de estruturas de poder colonialistas, imperialistas, racistas, totalitárias e ditatoriais, ou mesmo debaixo de estruturas de preconceito em sociedades democráticas;
  • o apoio aos aflitos, qualquer que seja a fonte de sua aflição (o chamado cuidado pastoral);
  • a gradual transferência de controle do trabalho missionário no Terceiro Mundo para as igrejas locais.

Embora em nenhum momento, durante o Congresso de Lausanne, Billy Graham e sua organização tenham manifestado oposição a essas ênfases oriundas dos pronunciamentos dos latinoamericanos, tendo elas sido incluídas até mesmo no Pacto de Lausanne, transcrito a seguir, embora de forma não tão “acachapante” (a redação diplomática de Stott tendo amenizado bastante o seu caráter confrontacional”), Billy Graham ficou preocupado, depois do Congresso, que esses componentes não-evangelísticos da chamada Missão Total pudessem, com o tempo, eclipsar o que para ele era a ênfase primária e essencial na evangelização. Por isso, ele gradualmente se afastou, sem denúncias ou rompimentos formais, de um envolvimento maior com o Comitê de Lausanne.


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